No entendimento de Elmar Varjão, engenheiro formado pela UFBA, com MBA em Gestão de Projetos pela FIA Business School, contar dias sem acidente é uma forma incompleta de medir a segurança de uma obra. O número mostra o que já aconteceu, mas diz pouco sobre o que está prestes a acontecer.
A placa na entrada do canteiro, com a contagem de dias sem afastamento, virou símbolo da segurança do trabalho na construção civil. Ela tem valor como reconhecimento coletivo, mas pode criar uma falsa tranquilidade quando passa a ser o único indicador acompanhado pela gestão, enquanto os riscos do dia a dia seguem sem medição.
O erro recorrente está em tratar a segurança como resultado, e não como processo. Os tópicos a seguir explicam por que essa inversão acontece, o que ela esconde e como os canteiros mais maduros constroem uma cultura de segurança capaz de antecipar o risco em vez de apenas registrá-lo.
Por que a ausência de acidentes engana?
Acidentes graves são eventos raros, e é justamente essa raridade que torna o placar enganoso. Uma frente pode operar meses com escavações sem escoramento adequado sem que nada aconteça. Quanto mais longa a sequência sem ocorrências, maior a tentação de pular etapas, um efeito que Elmar Varjão nota em equipes que relaxam justamente quando deveriam reforçar a atenção.
Estudos clássicos de segurança, como a pirâmide proposta por Frank Bird, relacionam cada acidente grave a dezenas de ocorrências leves e a centenas de incidentes sem lesão. Uma ferramenta que cai do andaime sem atingir ninguém é, portanto, um aviso gratuito: quando o quase acidente é registrado e analisado, a falha aparece antes de produzir vítima.
Indicadores que olham para frente
A gestão de segurança mais madura combina os indicadores de resultado com indicadores preventivos, e é nessa combinação que, segundo Elmar Varjão, está a diferença entre reagir e antecipar. Entram na conta o número de inspeções realizadas, o percentual de desvios corrigidos no prazo e a participação nos diálogos diários de segurança.
Esses dados só têm valor quando chegam às reuniões de planejamento com o mesmo peso de prazo e custo. Um aumento de quase acidentes reportados pode indicar mais confiança da equipe em falar, e não mais perigo. Essa leitura depende de análise cuidadosa, porque punir quem comunica faz o problema sumir dos relatórios, mas não do canteiro.
O papel da liderança no canteiro
Nenhum indicador funciona se o mestre de obras recebe a mensagem de que a produção vem antes de tudo. Os trabalhadores observam o que a liderança cobra na prática, e a experiência de Elmar Varjão em obras de infraestrutura aponta esse exemplo diário como o fator que mais pesa na conduta das equipes.
A pergunta que os trabalhadores fazem, mesmo sem dizer, é simples: um serviço é interrompido por falta de proteção coletiva ou a frente segue adiante para não perder o cronograma? Engenheiros, encarregados e gestores de contrato respondem a essa pergunta todos os dias, e são essas escolhas que formam a cultura de segurança, mais do que qualquer campanha ou cartaz.
Segurança desde o planejamento da obra
Muitos riscos podem ser eliminados ainda na fase de projeto. A escolha de elementos pré-moldados reduz o trabalho em altura, a sequência executiva bem definida evita equipes sobrepostas na mesma área e a modelagem em BIM permite visualizar interferências antes que elas cheguem ao canteiro, onde corrigi-las custa mais e expõe mais gente.
Quando a segurança entra no cronograma, no orçamento e nos critérios de escolha do método construtivo, ela deixa de ser item de fiscalização e passa a orientar decisões de engenharia. É essa visão de segurança como valor de gestão que Elmar Varjão considera decisiva para que uma obra não dependa da sorte para manter o placar zerado.
