A função da família no cuidado geriátrico sem sobrecarregar os acompanhantes

Diego Velázquez
5 Min de leitura
Yuri Silva Portela

O cuidado ao idoso é, na maioria das famílias brasileiras, uma responsabilidade assumida de forma silenciosa e progressiva, sem planejamento, sem divisão clara de tarefas e sem suporte profissional adequado. O Doutor Yuri Silva Portela, pós-graduado em Geriatria e fundador do projeto social Humaniza Sertão, percebe em sua prática que a família é ao mesmo tempo o principal recurso do idoso e um sistema que, quando não orientado, tende ao esgotamento. Compreender como a família pode participar do cuidado geriátrico de forma ativa, organizada e sustentável é tão importante quanto entender as necessidades clínicas do próprio idoso.

Como a família influencia a saúde do idoso?

A presença e o envolvimento da família têm impacto direto e mensurável sobre a saúde do idoso. Estudos demonstram que idosos com redes familiares ativas apresentam melhor adesão ao tratamento, menor risco de hospitalização, menor incidência de depressão e maior expectativa de vida do que aqueles que vivem em isolamento. A família que acompanha as consultas, organiza os medicamentos, monitora sinais de alerta e mantém uma comunicação aberta com a equipe de saúde funciona como um agente ativo de cuidado, e não apenas como suporte emocional secundário.

Contudo, esse envolvimento precisa ser construído sobre bases realistas. Famílias que assumem mais do que conseguem sustentar, que não dividem as responsabilidades de forma equilibrada entre seus membros ou que não buscam apoio profissional quando necessário tendem ao esgotamento, ao conflito interno e, paradoxalmente, a uma piora na qualidade do cuidado oferecido ao idoso. Conforme ressalta o Doutor Yuri Silva Portela, reconhecer os próprios limites é uma competência familiar tão importante quanto a disposição para cuidar.

Yuri Silva Portela
Yuri Silva Portela

Quais são os principais desafios das famílias que cuidam de idosos?

A comunicação é um dos maiores desafios. Falar sobre saúde, limitações, medos e decisões futuras com um familiar idoso exige habilidade, paciência e abertura para perspectivas que podem ser diferentes das dos filhos ou cuidadores. Muitas famílias evitam conversas difíceis sobre declínio funcional, institucionalização ou cuidados paliativos por medo de causar sofrimento, e esse silêncio frequentemente resulta em decisões tomadas em momentos de crise, sem o tempo necessário para reflexão e planejamento.

A divisão de responsabilidades entre irmãos e outros membros da família é outro ponto de tensão frequente. A tendência de que uma única pessoa assuma a maior parte do cuidado, enquanto os demais colaboram de forma esporádica ou apenas financeira, gera desequilíbrios que alimentam ressentimentos e conflitos. O Doutor Yuri Silva Portela sublinha que a mediação profissional, seja por meio de assistentes sociais, psicólogos ou geriatras, pode ser fundamental para ajudar as famílias a construir arranjos de cuidado mais justos e sustentáveis.

Como a geriatria orienta e apoia as famílias?

O cuidado geriátrico de qualidade inclui necessariamente a família como parte do plano terapêutico. Orientar os familiares sobre a condição do idoso, sobre o que esperar da evolução de suas doenças, sobre como comunicar-se de forma eficaz e sobre quais sinais de alerta merecem atenção imediata é parte do trabalho que o Doutor Yuri Silva Portela e profissionais da área realizam em cada consulta. Essa orientação reduz a ansiedade familiar, aumenta a segurança de quem cuida e melhora a qualidade do cuidado no dia a dia.

O Humaniza Sertão estende essa orientação às comunidades do sertão cearense, alcançando famílias que nunca tiveram acesso a esse tipo de suporte. Em cada ação do projeto, a equipe não apenas atende o idoso: conversa com quem cuida, escuta suas dificuldades e oferece ferramentas práticas para tornar o cuidado mais eficaz e menos desgastante. Cuidar bem do idoso começa por cuidar também de quem está ao seu lado.

Autor: Diego Rodríguez Velázquez

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